* Trabalho de conclusão de curso de formação em psicanálise do Instituto Távola/Instituto Esfera de Formação em Psicanálise
Resumo: O Supereu foi definido por Sigmund Freud (1856-1839) como herdeiro do complexo de Édipo. Esta instância do aparelho psíquico representa a lei (do pai), o elemento castrador do sujeito, que impõe limites aos seus afetos (meta sexual inibida). Na hipótese de resolução traumática do complexo de Édipo (castração), se instala a neurose. O Supereu passa a atacar o Eu, gerando o sentimento de culpa e a compulsão à repetição do trauma. Nas massas, esta dinâmica é a mesma. Os sujeitos também se deparam com metas sexuais inibidas (castração), frente às quais são compelidos a aderirem às regras sociais (lei do pai). Esta renúncia gera ressentimento, catalizador da agressividade, e por vezes, da violência. Neste contexto, é estabelecido um ciclo: eliminação (simbólica) do pai autoritário (totem), adesão à lei do pai (Supereu), culpa, divinização do pai morto que alivia a culpa (ressurreição). Este ciclo interminável gera regressão libidinal em indivíduos, que retomam a fixação em fases da primeira infância (oral, anal, fálica) e passam a se identificar com líderes autoritários (pai castrador). Os grupos passam a compartilhar o delírio do toque (ação mimética e hipnótica das massas), se identificam com um líder que as representem, delegando a ele sua agressividade. Com base em obras magistrais da psicanálise, analisaremos ao longo deste estudo como este fenômeno ocorre de tempos em tempos, podendo explicar psicanaliticamente as surpreendentes transições de povos entre períodos democráticos e autocráticos, ainda que à custa da concessão espontânea de liberdades a líderes autoritários.
Palavras-chave: Castração; Supereu; Neurose; Culpa; Autocracia.
1 INTRODUÇÃO
Este estudo tem o objetivo de demonstrar que o complexo de Édipo de resolução traumática está não apenas na base neurose obsessiva do sujeito, mas também das massas. A metodologia de pesquisa empregada é a revisão bibliográfica. O levantamento do referencial teórico se pautou principalmente em livros impressos, tendo por obras centrais Totem e Tabu (FREUD, 2013/1913), Psicologia das Massas e análise do eu (FREUD, 2024/1921) e Mal-estar na civilização (FREUD, 2011/1930).
Além disso, outras obras de psicanalistas consagrados foram utilizadas para embasar as assertivas apresentadas, como Psicologia das massas do fascismo (REICH, 2001), O mito do nascimento do herói: uma interpretação psicológica dos mitos (OTTO, 2015), Édipo: completo do qual nenhuma criança escapa (NASIO, 2007), Lições sobre 7 conceitos cruciais da psicanálise (NASIO 1997), Sim, a psicanálise cura! (NASIO, 2009), Por que repetimos os mesmos erros (NASIO, 2014), entre outros.
Também foram utilizadas obras clássicas para ilustrar a aplicação dos conceitos psicanalíticos, como por exemplo, O Príncipe (MAQUIAVEL, 2002), Vigiar e punir (FOUCALT, 2014), A revolução dos bichos (ORWELL, 2021), Origens do totalitarismo (ARENDT, 2012), Homens em tempos sombrios (ARENDT, 2008), A cidade antiga (COULANGES, 2004), Discursos sobre a servidão voluntária (DE LA BOÉTIE (2017), Os irmãos Karamázov (DOSTOIÉVSKI, 2023), A violência e o sagrado (GIRARD, 1990).
A magistral obra Totem e Tabu (FREUD, 2013/1913), a despeito de se tratar de uma fábula antropológica, demonstra a genialidade e a profunda compreensão do espírito humano pelo fundador da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1839). A obra sintetiza a formação da civilização desde as organizações tribais, passando pela origem do estabelecimento de leis (tabus), chegando às bases que justificam a formação do Estado (totem).
Já na obra Psicologia das massas e análise do eu (FREUD, 2024/1921), as considerações de Freud permitem traçar liame entre o mecanismo da neurose obsessiva do sujeito (indivíduo) e da massa (coletiva), ambas resultantes da mesma gênese: o complexo de castração, ou complexo de Édipo.
Em O mal-estar na civilização (FREUD, 2011/1930), é possível constatar que do complexo de castração emergem sentimentos ambivalentes na massa: (i) de um lado manifestação volitiva de pertencimento a grupos sociais com submissão às suas regras de uniformização e de pacificação social, e (ii) de outro, extravasamento constante do ruído psíquico agressivo e da culpa neurótica.
Nessa esteira, tanto no âmbito do sujeito, quanto da massa, a meta sexual inibida produz de forma ambivalente a coesão de grupos humanos e o ressentimento pela entrega da liberdade individual à lei [castração] (FREUD, 2024/1921, p.117). Isso porque a castração traumática produz a neurose obsessiva, potencializada pelo delírio do toque, eclodindo o sentimento de culpa (FREUD, 2013/1913, p.11).
O delírio do toque arregimenta seguidores na massa por ação hipnótica (FREUD, 2024/1921, p.97), mantém o elo coletivo principalmente por mimetização (manipulação da linguagem por palavras de ordem), mas também impõe renúncias para amalgamar o grupo (confluências comportamentais). Tal dinâmica gera ressentimentos individuais, despertando agressividade. A agressividade reprimida termina por se traduzir em movimento de regressão libidinal, levando o sujeito à infantilização.
A infantilização do sujeito dentro da massa põe em ação um novo ciclo de castração, gerando uma nova fantasia de angústia de eliminar o pai, seguido por sentimento de culpa e nova submissão à lei autoritária (FREUD, 2013/1913, p.149). Com isso são reproduzidos os tabus, que limitam as vontades individuais (FREUD, 2024/1921, p.146-147), num ciclo de repetição que pode conter o germe do fenômeno de massa que vemos historicamente: a alternância cíclica entre períodos democráticos e autocráticos.
2.1 O BANQUETE TOTÊMICO
O consenso histórico atual relativo à evolução do homem no planeta Terra aponta que há cerca de 20 ou 30 milhões de anos surgiram os primeiros primatas. Também indicam que há cerca de 2,5 milhões de anos tais indivíduos começaram a usar ferramentas e foram denominados homo habilis (homem habilidoso) Sugerem, ainda, que há cerca de 1 milhão de anos estes ancestrais humanos passaram a andar sobre dois pés, tendo sido classificados como homo erectus (homem de pé). E por fim, há cerca de 60 ou 80 mil anos o homo sapiens (homem sábio) passou a realizar rotas migratórias pelo globo terrestre (LASCELLES, 2017, p.17-20).
Aduzem, porém, que somente há aproximados 10 mil anos, o homo sapiens passou da caça ao cultivo de alimentos (caçadores-coletores), o que “fez com que as sociedades por fim fossem capazes de sustentar especialistas não produtores de alimentos, como artesãos, religiosos, burocratas e soldados, além de líderes políticos”, dando ensejo à departamentalização das habilidades mentais humanas (LASCELLES, 2017, p.21).
A partir daí, somente por volta de 5.000 anos, na antiga Mesopotâmia, região hoje conhecida como Iraque e Síria, o primeiro sistema de escrita foi desenvolvido pelos povos sumérios. Esta forma de escrita rudimentar originalmente pictográfica evoluiu para sinais grafados em tabuletas de junco ou argila, tendo sido denominada escrita cuneiforme (MARRIOTT, 2016, p.10-11).
Inclusive, é pela escrita cuneiforme que se tem registros da primeira obra literária da humanidade, o poema épico mesopotâmico “a epopeia de Gilgamesh”, datado de cerca de 2.000 a.C., que descreve a primeira versão da jornada do herói (CAMPBELL, 2023, p.177). Também na escrita cuneiforme foi registrado o primeiro texto com autoria da história humana, elaborado pela princesa Enheduana, filha do rei Sargão de Acádia, que assinou 47 hinos poéticos religiosos por volta de 2.250 a.C., unindo as culturas mesopotâmica e acadiana. E ainda pela escrita cuneiforme foi instituído o primeiro código de leis conhecido, o Código de Hamurabi, há cerca de 1.700 a.C., no reinado do imperador babilônico Hammurabi (MARRIOTT, 2016, p.18).
Há registros, também, entre 5.000 e 2.000 anos a.C., de sociedades organizadas ocupando outras regiões como da África (egípcios), China e América Central (Olmecas). (MARRIOTT, 2016, p.22-28). Estas sociedades primevas, ainda que relegadas a um passado longínquo, constituíram em algum momento cidades-estado ocupadas por milhares de indivíduos, chegando até mesmo a 40 mil habitantes como é o caso de Ur, na Suméria (MARRIOTT, 2016, p.14).
As antigas cidades-estado não podiam prescindir da lei [do pai]. O Estado ao qual os habitantes transferiram a aplicação da ordem social pode ter surgido a partir de três raciocínios hipotéticos: (i) teorias da origem familiar (patriarcal ou matriarcal), (ii) teorias da origem patrimonial (proteção à propriedade), e (iii) teorias da força (violência) (MALUF, 2009, p.61-64).
Coadunando com a linha hipotética de Totem e Tabu (FREUD, 2013/1913, p.145), seguiremos pela teoria da força assim definida por Maluf (2009, p.64): “o que dá origem ao Estado é a violência dos mais fortes”. E em perfeita simetria com a descrição do surgimento da neurose coletiva, sob a égide da qual cicla o sentimento de culpa que passa a unir a horda primitiva após assassínio do pai totêmico, o jurista acrescenta:
Segundo um entendimento mais racional, porém, a força que dá origem ao Estado não poderia ser a força bruta, por si só, sem outra finalidade que não fosse a de dominação, mas sim, a força que promove a unidade, estabelece o direito e realiza a justiça (MALUF, 2009, p.65).
A descrição acima reflete perfeitamente a veneração e o horror que proliferam na horda primitiva a partir da deposição violenta do pai totêmico, bem como o liame que se forma para unir a horda (filhos) e criar a lei (tabus). Na obra Totem e Tabu, o tabu é definido como “temor sagrado” e “o mais antigo código de leis não escritas da humanidade” (FREUD, 2013/1913, p.12-13). Interessante extrair da obra citada que os tabus forjaram não só o caráter geral das permissões e vedações legais para regulação social, mas que representam a origem de direitos contemporaneamente erigidos pelos países democráticos como fundamentais.
Os objetos de tabu são muitos: 1. Tabus diretos visam: a) a proteção de pessoas importantes – chefes, sacerdotes, etc – contra qualquer dano; b) a salvaguarda dos fracos – mulheres, crianças e pessoas comuns em geral – em relação ao poderoso mana (influência mágica) dos sacerdotes e chefes; c) prevenção contra os perigos ligados à manipulação ou contato com cadáveres, ingestão de certos alimentos etc.; d) a garantia contra a interferência em atos vitais importantes como nascimento, iniciação, casamento, atividade sexual etc.; e) a proteção de seres humanos contra a ira ou poder de espíritos e deuses; f) a proteção de crianças ainda não nascidas e de crianças pequenas, que têm um vínculo especialmente simpático com um ou ambos os genitores, quanto às consequências de determinadas ações, em particular quanto à transmissão de características supostamente derivadas de certos alimentos. 2. Tabus são impostos a fim de guardar de ladrões a propriedade de um indivíduo, seus campos, utensílios, etc [...]Tal força é inerente a todos o que são algo especial, como reis, sacerdotes, recém-nascidos, a todas as condições excepcionais, como os estados físicos da menstruação, da puberdade, do nascimento, a tudo o que é inquietante, como a doença e a morte, e ao que a eles se relaciona por força de contágio ou difusão (FREUD, 2013/1913, p.13-14;16, grifo nosso).
Como se vê na descrição acima, os tabus são erigidos para proteger determinadas pessoas por sua condição superior (chefes, líderes, sacerdotes):
Deixando, então, de lado as coisas relativas a um príncipe imaginário e tratando das que são reais, digo que todos os homens, especialmente os príncipes, pelo fato de estarem em posição mais alta, são vistos através das qualidades que lhes rendem reprovação ou louvor (MAQUIAVEL, 2002, p.199-200).
Os tabus também são fixados para proteção de pessoas vulneráveis (crianças, mulheres grávidas, idosos), para evitar contágio (mulheres menstruadas, cadáveres, alimentos ou animais venenosos), para proteger patrimônio (ladrões), para evitar punições indevidas (proteção contra ira de deuses), etc (FREUD, 2013/1913, p.13-16).
Assim, é possível extrair que o tabu reflete nada mais, nada menos, do que a evolução social, política e jurídica dos povos, culminando em proteções fundamentais que as cartas magnas dos países conferem a crianças, idosos, mulheres, famílias, líderes, liberdade, patrimônio, fome, hierarquias, entre outros, calcados na lista de tabus que determinado país define como fundantes.
Desse modo, é possível afirmar que, se quisermos conhecer profundamente os tabus de determinado povo, basta pesquisarmos suas leis sob a ótica psicanalista. A mera comparação dos trechos freudianos acima transcritos com os direitos e garantias fundamentais do Brasil, protegidos pelo artigo 5º de sua Constituição Federal, ilustra esta assertiva e mostra claramente quais os tabus protegidos no país:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes (BRASIL, 2025) [1]
Naturalmente, conforme as sociedades avançam, muitas outras normas vão sendo fixadas, todos elas refletindo o emaranhado de tabus necessários para garantir a coesão de determinado grupo social, como por exemplo, garantias específicas a crianças ( Estatuto da criança e do adolescente), a idosos ( Estatuto do idoso), a mulheres (leis específicas de proteção e coibição de violência).
Interessante notar que o tabu pode ser calcado em objetos, pessoas, alimentos, animais, datas, palavras, períodos, forças da natureza, partes de corpos, demonstrando toda uma gama de fatores que despertam o dito temor sagrado (FREUD, 2013/1913, p.15), lembrando que o líder (pai) é intocável, a ele não se aplicando a lei do incesto, já que a lei emana dele.
Este temor sagrado cria sentimentos ambivalentes em relação ao pai, produzindo simultaneamente veneração e horror, amor e ódio, atração irresistível e medo invencível, que nascem do delírio do toque, ou délire de toucher (FREUD, 2013/1913, p.22). O medo do toque emerge de uma proibição que “se estende não só ao contato direto com o corpo; [...] tudo que dirige os pensamentos para a coisa proibida, que produz um contato em pensamento com ela, é proibido...” (FREUD, 2013/1913, p.22). Esmiuçando o nascedouro do delírio do toque, Freud ilustra como esta dualidade produz a neurose obsessiva:
Eis a história de um caso típico de delírio de toque. Bem no início, na primeiríssima infância, evidenciou-se um forte desejo de tocar, cujo objetivo era muito mais especializado do que se esperaria. Logo veio de encontro a esse desejo, de fora, a proibição de realizar justamente esse toque [tanto o desejo como a proibição referem-se ao contato com os próprios genitais]. A proibição foi aceita, pois pôde ancorar-se em poderosas forças internas [nas relações com pessoas amadas das quais partiu a proibição]; revelou-se mais forte do que o instinto que queria manifestar-se no toque. Proibição e instinto foram ambos mantidos; o instinto, porque estava apenas reprimido, não abolido, a proibição, porque, quando cessasse, o instinto viria à consciência e alcançaria a realização. Estava criada uma situação não resolvida, uma fixação psíquica, e do persistente conflito entre proibição e instinto deriva tudo o mais [...] A principal característica da constelação psicológica que assim foi fixada é o que se poderia chamar a atitude ambivalente do indivíduo quanto a um objeto, ou melhor, quanto à ação sobre ele. Ele quer sempre realizar esta ação – o toque – [e nela vê o máximo deleite, mas não pode realizá-la], e também a abomina (FREUD, 2013/1913, p.24, grifo nosso).
Do delírio do toque, contudo, emergem dois efeitos que são observáveis na psicologia das massas: (i) a relevância; e (ii) a mimetização. No tocante à relevância, tem-se que o tabu tende a afastar a massa do objeto que emana o poder ou horror, de forma que este seja desejado, mas não tocado, e o mero pensamento do desejo ao toque, produz culpa, pois para o inconsciente não há diferenciação entre o imaginado e o executado. Maquiavel (2002, p.129) ilustra esta assertiva: “Arruína a si mesmo aquele que alimenta o poder de outro” (MAQUIAVEL, 2002, p.129).
O toque leva ao contágio, e o contágio transforma o objeto de desejo em tabu, pois “também sabemos que quem infringiu um tabu ao tocar em algo que é tabu torna-se ele próprio tabu e ninguém pode entrar em contato com ele”, operando-se “infecção do tabu” (FREUD, 2013/1913, p.70). Desse modo, são criados intermediários entre os indivíduos (massa) e o proibido/desejado (tabu), e tais intermediários acabam se tornando também tabus por contágio, deles emanando poder adquirido a partir do objeto ou pessoa idealizada (FREUD, 2013/1913, p.29).
Este processo explicita o que nos tempos atuais denominamos busca por relevância, em que pessoas próximas a líderes, artistas, políticos, detentores de cargos ou posições sociais idealizadas, se tornam intermediários do brilho, riqueza, poder, beleza, desejo, inveja, e por vezes, são considerados pela massa (público) tão relevantes quanto a figura de poder original (totem).
...para manter a honestidade de seu ministro, o príncipe deve atentar para ele, honrando-o, enriquecendo-o, dividindo com ele as honras e as atribuições, mas ao mesmo tempo fazendo com que ele veja que não pode afastar-se do príncipe, de modo que as muitas honrarias não façam com que ele ambicione outras, que as muitas riquezas não façam com que ele deseje mais riquezas e que suas muitas atribuições façam com que tema mudanças. (MAQUIAVEL, 2002, p.250-251).
Tal dinâmica viciada em tabus por contágio cria toda sorte de hierarquias e intermediários com os quais a sociedade lida tanto na organização de pequenos grupos sociais, quanto de nações inteiras. “Reis e chefes são possuidores de grande poder, e significa morte para seus súditos dirigir-se a eles diretamente; mas um ministro ou outra pessoa de mana maior que o comum pode aproximar-se deles impunemente” (FREUD, 2013/1913, p.15, itálico do autor). E isso porque “o súdito, que teme a formidável tentação do contato com o rei, pode suportar o trato com o funcionário que não precisa invejar tanto” (FREUD, 2013/1913, p.28).
Já a mimetização nascida do tabu, cria regras de padronização dos agrupamentos sociais. Em nações, disso decorre a formação cultural de um povo, sua moral, seus valores e suas tradições. Porém, em grupos sociais, políticos, religiosos, civis, e outros, cria imitação repetitiva de comportamentos que buscam homogeneizar e vincular os integrantes. “Traduzimos a força de contágio própria do tabu em sua capacidade de induzir à tentação, de incitar a imitação” (FREUD, 2013/1913, p.29).
O objetivo desta tática de coesão coletiva é manter a atenção do grupo focada no totem (líder), garantindo que pensamentos e ações estejam alinhados e engajados nos tabus (regras do grupo). “Então os homens vão admitir que a invocação de espíritos nada consegue, se não existe a crença neles, e que também a força mágica da oração fracassa, se por trás dela não se acha a devoção” (FREUD, 2013/1913, p.84).
Esta força devocional é padronizada por palavras de ordem, hinos, mantras, cores, roupas, logotipos, slogans, gestos, cortes de cabelo, comportamentos, e transborda para passeatas, movimentos públicos, reuniões, datas comemorativas, afastamento de outros grupos não alinhados. “Os membros do clã estão vestidos à semelhança do totem, imitam-no em sons e movimentos, como se quisessem enfatizar sua identidade e a dele” (FREUD, 2013/1913, p.146).
Mas “onde existe uma proibição deve esconder-se um desejo” (FREUD, 2013/1913, p.69). E o totem é exatamente o objeto deste desejo. Vejamos. Em Totem e Tabu, a horda primeva venerava o pai autoritário e violento, que mantinha seu domínio pela violência, detendo para si todas as fêmeas da tribo e expulsando os filhos do contato sexual endogâmico (FREUD, 2013/1913, p.151). Certa feita, os filhos mataram e devoraram violentamente o pai. “No ato de devorá-lo eles realizavam a identificação com ele, e cada um apropriava-se de parte de sua força” (FREUD, 2013/1913, p.148), introjetando as características paternas.
O morto é profundamente lamentado (culpa), e depois, alegremente homenageado (festividade), donde emergiu o afeto ambivalente, produzindo nos filhos a neurose obsessiva e seu inato sentimento de culpa. A fim de aplacar a culpa, criaram o tabu, aplicando a lei original do pai com a proibição da deposição de seu substituto (totem) e a interdição dos irmãos às mulheres da tribo (tabu).
Eles odiavam o pai, que constituía forte obstáculo a sua necessidade de poder e suas reinvindicações sexuais, mas também o amavam e o admiravam. Depois que o eliminaram, satisfizeram seu ódio e concretizaram o desejo de identificação com ele, os impulsos afetuosos até então subjugados tinham de impor-se. Isso ocorreu em forma de arrependimento, surgiu uma consciência de culpa, que aí equivale ao arrependimento sentido em comum. O morto tornou-se mais forte do que havia sido o vivo; tudo como ainda hoje vemos nos destinos humanos. Aquilo que antes impedia com sua existência eles proibiram então a si mesmos, na situação psíquica da “obediência a posteriori”, tão conhecida nas psicanálises. Eles revogaram seu ato, declarando ser proibido o assassínio do substituto do pai, o totem, e renunciaram à consequência dele, privando-se das mulheres então liberadas. Assim criaram, a partir da consciência de culpa do filho, os dois tabus fundamentais do totemismo, que justamente por isso tinham de concordar com os dois desejos reprimidos do complexo de Édipo (FREUD, 2013/1913, p.149, itálico do autor).
Com base no implacável banquete totêmico é que se estabeleceu o complexo de castração, ou complexo de Édipo, ou lei do incesto (FREUD, 2013/1913, p.145), interditando a sexualidade parental, definindo o tipo de psique humana daí decorrente, a neurose, que não é nada mais, nada menos, do que a “doença do tabu” (FREUD, 2013/1913, p.21).
2.2 O COMPLEXO DE ÉDIPO
O complexo de castração, ou complexo de Édipo, reflete a reprodução do banquete totêmico nos afetos nascidos da intimidade familiar. Nele estão presentes veneração, ódio, idolatria, incesto, afeto, repressão, agressividade, ressentimento, sentimento de culpa.
No mito grego, Édipo sem saber (inconsciente), mata seu pai Laio e se casa com sua mãe Jocasta, mas ao descobrir as relações parentais (consciente), é fulminado pela culpa (Supereu ataca o Eu), fura seus olhos (recalque) e se torna um eremita. Mais tarde, seus descendentes (filhos tidos com sua mãe Jocasta) também serão atingidos pela culpa e morte desdobradas a partir da violação inconsciente de tabus (OTTO, 2015, p.36). Esta alegoria freudiana foi utilizada para sedimentar a teoria psicanalítica do complexo de castração e suas consequências neuróticas para filhas e filhos.
“O Édipo começa com a sexualização dos pais e termina com a dessexualização que desembocará finalmente na identidade sexual adulta”. Sim, a psicanálise versa acerca de afetos sexualizados entre pais e filhos e da crise que se desdobra entre “os desejos incestuosos, as fantasias e a identificação” (NASIO, 2007, p.15).
Na primeira fase, na maioria das vezes já concluída aos cinco anos, a criança encontrou um primeiro objeto amoroso num de seus pais, objeto sobre o qual se unificaram todos os seus impulsos sexuais exigindo satisfação. O recalcamento que então ocorreu a obrigou a renunciar à maioria dessas metas sexuais infantis e deixou uma modificação profunda na relação com os pais. A criança continuou ligada a eles, mas com impulsos que temos de chamar de “impulsos de meta inibida”. Os sentimentos que a partir de então ela sente por essas pessoas amadas são qualificados de “ternos” (FREUD, 2024/1921, p. 110, grifo nosso).
Naturalmente não se está a dizer que há relações sexuais entre genitores e seus bebês. A psicanálise cuida essencialmente do impacto que as relações primordiais de afeto provocam na introjeção de características masculinas e femininas pela criança (FREUD, 2024/1921, p.98). Tais desdobramentos se dão a partir do nascimento e irão guiar a formação psíquica do futuro adulto. A castração, neste contexto, é importante para que o bebê compreenda sua separação do mundo externo e suas limitações frente ao outro. Este processo traumático forma o Supereu (lei) e produz a neurose:
A origem dessa instância soberana da personalidade – explicitamente descrita por Freud no contexto da segunda teoria do aparelho psíquico (aparelho composto pelo ego, id e superego) – remonta ao período do desaparecimento do complexo de Édipo, por volta dos cinco anos de idade. Nessa época, a proibição que os pais impõem ao filho edipiano de realizar seu desejo incestuoso torna-se dentro do eu, um conjunto de exigências morais e de proibições que, dali por diante, o sujeito imporá a si mesmo. É essa autoridade parental internalizada durante o Édipo, e diferenciada no seio do eu como uma de suas partes, que a psicanálise chama de supereu. Freud resumiu numa única frase bastante conhecida a própria essência do supereu: ‘O superego é o herdeiro do complexo de Édipo’ (NASIO, 1997, p.149, grifo nosso).
Verifica-se que a castração é vital no desenvolvimento psíquico da criança, pois faz eclodir o respeito à lei (tabu), seja do incesto, da física, da biologia ou do direito, que inexoravelmente submete a todos. O processo de crescimento e desenvolvimento psíquicos, portanto, depende essencialmente da compreensão da lei. “Até ali, ela [criança] vivia na ilusão da onipotência; dali por diante, com a experiência da castração, terá de aceitar que o universo seja composto de homens e mulheres e que o corpo tenha limites...” (NASIO, 1997, p.13).
O complexo de Édipo, ou castração, na teorização freudiana, ocorre entre 3 e 5 anos, tanto em meninos, quanto em meninas. A forma como se desdobra em cada um, contudo, tem nuances específicas. Esta idade é descrita como fase fálica. “O Falo não é o pênis enquanto órgão. O Falo é um pênis fantasiado, idealizado, símbolo da onipotência e de seu avesso, a vulnerabilidade” (NASIO, 2007, p.22).
No menino de 3 a 5 anos, o Édipo se manifesta a partir de três desejos incestuosos pelos pais (possuir, ser possuído e suprimir), que correspondem respectivamente a fantasias de prazer e angústias de castração (NASIO, 2007, p.24-36).
O menino desenvolve, então, o (i) desejo incestuoso de possuir a mãe, correspondente à fantasia de manter contato com seu corpo e à angústia de castração de perder o falo (tê-lo removido pelo pai rival); o (ii) desejo incestuoso de ser possuído pelo pai corresponde à fantasia de ser submetido à autoridade ou à violência física paterna, o que produz a angústia de castração de perder sua virilidade; o (iii) o desejo incestuoso de eliminar o pai corresponde à fantasia de afastar a presença física do pai para ter a mãe só para si, gerando a angústia de castração de eliminar o pai e lidar com a culpa decorrente deste ato.
A resolução do Édipo no menino, ocorre porque “a angústia, mais forte que o prazer, dissuade a criança de prosseguir sua busca incestuosa e a leva a desistir do objeto de seus desejos” (NASIO, 2007, p.16). Em outras palavras, o menino se submete à lei do interdito do incesto (tabu), introjeta o pai (desiste de eliminar o pai e se identifica com suas características masculinas). Adota a moral dos pais (Supereu) e vai em busca de outra mulher para oferecer seu afeto castrado (exogamia) - (FREUD 2024/1921, p.99).
Por outro lado, se o menino não passa pela satisfatória resolução do Édipo, ou o faz de modo traumático, não desenvolverá adequadamente seu potencial no mundo e lidará com angústias neuróticas ao longo de toda sua vida adulta (NASIO, 2007, p.24-36).
Na menina de 3 a 5 anos, contudo, o Édipo ocorre de forma diferente: “o menino deseja apenas um único objeto sexual, a mãe; ao passo que a menina deseja ambos: antes a mãe, depois o pai” (NASIO, 2007, p.48)
[o menino] Este entra diretamente no Édipo porque desde logo deseja sua mãe e abandona o Édipo quando deseja outra mulher que não sua mãe. A menina, por sua vez, entra no Édipo (isto é, sexualiza seu pai) após ter atravessado a fase pré-edipiana durante a qual sexualiza, e depois rejeita, sua mãe, e abandona o Édipo quando deseja outro homem que não seu pai [...] O menino, como vimos, dessexualiza simultaneamente seus dois genitores de maneira rápida e brutal, ao passo que a menina dessexualiza primeiro a mãe e só depois, mais tarde, muito lentamente, separa-se sexualmente do pai (NASIO, 2007, p.49, itálicos do autor).
Assim, na menina a situação edipiana é mais complexa do que no menino. A princípio, a menina tem uma relação edipiana com a mãe (fase oral, fase anal). Na fase fálica, a menina descobre que a mãe não lhe deu um falo e sente-se humilhada, repudia a mãe e entra no Édipo com o pai a fim de pedir a ele falo (poder), num movimento chamado “inveja do Falo” ou “inveja do pênis” (NASIO, 2007, p.47-53).
Neste ponto deve ocorrer a primeira recusa paterna: o pai se recusa a conceder seu falo (poder) à filha. A menina, então, “lança-se agora, com toda a fúria de seu desejo juvenil, nos braços do pai, não mais para lhe arrancar o poder, mas para ser ela mesma a fonte de poder”, sexualizando seu afeto perante o pai (NASIO, 2004, p.55). Aqui deve se dar a segunda recusa paterna, na qual o pai refuta o relacionamento incestuoso com a filha e reafirma seu afeto pela mãe. “No primeiro caso, o pai é aquilo que se gostaria de ser, no segundo, aquilo que se gostaria de ter” (FREUD, 2024/1921, p.100, itálicos do autor).
A menina, então, tem seu Édipo resolvido, introjeta a moral do pai (lei, tabu) e ficando fascinada pela graça e feminilidade da mãe (identificação), passando a idealizá-la e imitá-la (NASIO, 2007, p.56). Uma vez adulta, a filha encontra um homem para si (exogamia) e com ele tem seu próprio filho (falo/poder). Se a 1ª e/ou a 2ª recusas paternas não ocorrem adequadamente ou forem de algum modo traumáticas, a menina não resolverá seu Édipo, não passará adequadamente pela castração e desenvolverá complicações neurotizadas ao longo de toda sua vida adulta (NASIO, 2007, p.47-62).
Numa bela síntese, o menino é um ser de medo (aceita a castração por receio de perder o falo) e a menina é um ser de coragem (aceita a castração por admitir que não possui o falo) (NASIO, 2007, p.37).
Por outro lado, a resolução insuficiente do Édipo leva a um conflito parental mal resolvido de dessexualização insuficiente (recalque) do qual decorre uma neurose ordinária (NASIO, 2007, p.95). A situação se agrava diante da resolução traumática do Édipo, que produz a neurose mórbida, patológica. Nesta circunstância, o Édipo traumático retorna ao sujeito sob três tipos de neuroses patológicas: (i) fóbica, (ii) histérica e (iii) obsessiva, podendo surgir de forma pura ou mista com predominância de uma delas (NASIO, 2007, p.96).
A sensação brutal de abandono pelos pais edipianos leva o futuro adulto a se descobrir um neurótico fóbico. Ou seja, a forte experiência de ser esquecido, relegado, preterido, desatendido, faz com que siga para a vida adulta procurando domar o ambiente externo numa tentativa repetitiva de controlar a ausência dos pais, desenvolvendo fobias (NASIO, 2019, p.76).
A neurose histérica, por sua vez, exsurge de um trauma de sedução. A criança excessivamente excitada fica traumatizada por não suportar os pais sexualizados. Esta expectativa de sedução forte demais lança-a num processo de busca pela repetição do prazer (gozo), criando fantasias de sedução e pavor de abandono (NASIO, 2007, p.121). Aqui, o pai deixa a criança num limbo entre a proibição e permissão ao incesto, o que a trona fragilizada e vulnerável.
Já a criança veementemente maltratada, ou humilhada, tende ao desenvolvimento da neurose obsessiva. Ser severamente maltratada imprime na criança uma conduta “impotente e furiosa, temendo as represálias do pai por um erro que ignora” (NASIO, 2007, p.97). A criança é frequentemente repreendida ou castigada por falhas que desconhece, ordens que não recebeu, entre outras circunstâncias que a aterrorizam. A constante sanha punitiva dos pais torna a criança medrosa e, de forma ambivalente, revoltada e rebelde. Esta angústia de castração é deslocada “do inconsciente para a consciência e se cristaliza como um sentimento de culpa” e o Eu passa a ser atacado (punido) por seu Supereu (NASIO, 2007, p.116). O adulto desenvolve o medo de ser incapaz e esta sensação de inferioridade produz agressividade reativa (NASIO, 2019, p.76). A agressividade pode, em determinado tempo e circunstância, se exteriorizar em violência.
...a fobia é o retorno, na idade adulta, da fantasia de angústia de ser abandonado pelo pai repressor, que a histeria é o retorno da fantasia de angústia de ser assediado pelo pai sedutor, e a obsessão, finalmente, é o retorno da fantasia de angústia de ser maltratado e humilhado pelo pai rival (NASIO, 2007, p.97, itálicos do autor).
2.3 ALTERNÂNCIA ENTRE DEMOCRACIA E AUTOCRACIA NA PSICOLOGIA DAS MASSAS
Uma pesquisa intitulada Relatório da Democracia 2025, produzida pelo Instituto Variedades de Democracia (V-Dem) da Universidade de Gotemburgo (Suécia), que coleta dados desde 1978 em cerca de 200 países, revelou um estudo curioso: no final do ano de 2024 foram constatadas 91 autocracias contra 88 democracias no mundo, invertendo a tendência dos últimos 20 anos. O estudo indica que 3 entre 4 pessoas no mundo vivem atualmente em autocracias (72%) e que mais 45 países (representando 40% da população mundial) estão em fase de autocratização (INSTITUTO V-DEM, 2025, p.14, 21 e 22).
Em países democráticos, há eleições livres e regulares, poder político representativo, autonomia partidária, sufrágio universal, paridade de armas no processo eleitoral, liberdade de expressão, comunicação social, livre associação, proteção ao princípio da igualdade, sociedade civil participativa (INSTITUTO V-DEM, 2025, p.11). Já em países autocráticos, há concentração de poder em pessoas ou grupos, restrições às liberdades civis e eleitorais, censura, repressão ao descumprimento de regras de controle impostas pelo governo, limitação às organizações da sociedade civil e aos partidos políticos de oposição (INSTITUTO V-DEM, 2025, p.30).
Mas por que, num mundo que já vivenciou períodos de dominação violenta, totalitarismo, genocídios, sofrimentos atrozes, a massa adere a tal dinâmica de poder centrada em líderes autocráticos?
Retomemos o banquete totêmico. O pai violento impõe sua lei do incesto aos filhos. Os filhos têm sua liberdade e seus desejos coibidos, são reprimidos, se recalcam, se ressentem, se tornam agressivos e essa agressividade eclode em violência com o assassínio e canibalismo do pai. Os irmãos se unem, mas a união exige a escolha do substituto do pai, que para preservar a igualdade entre os irmãos e aplacar a culpa, retoma a lei do pai (FREUD, 2013/1913, p.151).
A memória do pai, por sua vez, é divinizada, sua morte é pranteada (culpa) e também festejada (festas populares). Freud (2024/1921, p.146-148) compara esta alternância aos ciclo de melancolia (autoculpabilização) e mania (festividade, comemoração) vividos pelo neurótico maltratado. Esta ambivalência no afeto torna o pai morto mais poderoso do que o pai vivo na mente do filho, correspondendo à ressurreição figuras divinizadas (FREUD, 2013/1913, p.152). O ciclo repetido é o da eliminação do pai, resultante do complexo de Édipo de resolução traumática, que produz na massa a neurose obsessiva. Portanto, o complexo de castração está na base da neurose obsessiva do sujeito, mas também produz a neurose obsessiva da massa (FREUD, 2024/1921, p.54).
A obsessão resulta do deslocamento da angústia de castração, que passa do inconsciente para a consciência e se cristaliza como um sentimento de culpa. A angústia inconsciente de ser espancado pelo pai rival transforma-se em angústia de ser punido pelo próprio supereu. Essa angústia de se sentir um erro e passível de castigo chama-se sentimento de culpa (NASIO, 2007, p.116-117, grifo nosso)
O objeto que se repete vem da cena fantasística do passado traumático, gerando o gozo insatisfatoriamente simbolizado e recalcado, excluído da lei (foracluído). Este vaga no inconsciente (Isso) e é trazido ao Eu pela pulsão (repetição tópica), que o Eu quer trazer para a ação, mas o Supereu quer atacar. Por continuar não simbolizado, permanece se repetindo (repetição temporal), gerando a compulsão patológica à repetição (NASIO, 2014, p.73).
Em suma, quer se trate de fobia, histeria ou obsessão, o sofrimento de um neurótico é explicado por sua necessidade de repetir compulsivamente a mesma situação na qual sofreu o impacto de uma angústia traumática. Em outras palavras, a neurose é o retorno compulsivo de uma fantasia infantil de angústia de castração (NASIO, 2007, p.97).
A neurose obsessiva leva ao medo, à raiva (revolta) e à culpa. “Toda espécie de frustração, toda satisfação instintual contrariada tem ou pode ter por consequência uma elevação do sentimento de culpa” (FREUD, 2011/1930, p.85). A massa se agrupa para tentar diluir estas angústias, no entanto, as metas inibidas dos indivíduos permanecem pulsando (vindo à tona, incomodando, exigindo satisfação).Solicitar orientação
As fontes de insatisfação do sujeito inserido na cultura advêm daquilo que ele renuncia para ter acesso ao convívio social. São a sexualidade de meta inibida e a vedação da agressividade: “se a cultura impõe tais sacrifícios não apenas à sexualidade, mas também ao pendor agressivo do homem, compreendemos melhor por que para ele é difícil ser feliz nela” (FREUD, 2011/1930, p.61).
Os seres humanos têm muitas necessidades físicas universais para a sobrevivência, mas também temos certos motivos sociais básicos. [...] Quando esses motivos são satisfeitos, temos tendência a nos sentir bem; quando são frustrados ou quando as circunstâncias nos colocam em conflito, sentimo-nos estressados (ARONSON, 2023, p.53)
Para participar de um grupo, o sujeito concorda em ceder partes de sua singularidade para adquirir um “poder invencível” (FREUD, 2024/1921, p.45):
São, portanto, os próprios povos que se deixam ou, ainda, se fazem maltratar, pois ao pararem de servir estariam livres; é o povo que se subjuga, que corta a própria garganta, que, podendo escolher entre servir ou ser livre, abandona a liberdade e toma o jugo, que consente com seu infortúnio e até mesmo o busca (DE LA BOÉTIE, 2017, p.39)
A massa é grandiosa, onipotente, desinibida, confiante, e o sujeito tem a sensação inicial de que suas repressões, recalques e metas inibidas serão compensadas (FREUD, 2024/1921, p.51). “É como se não tivesse perdido a liberdade, mas sim ganhado a servidão” (DE LA BOÉTIE, 2017, p. 49).
O indivíduo, diluído na massa, regride. “Este é aproximadamente o estado do indivíduo que pertence a uma massa psicológica. Ele não tem mais consciência de seus atos” (FREUD, 2024/1921, 46). A massa é perigosa pois sua capacidade intelectual é inferior à do indivíduo, fenômeno que se dá com a “inibição coletiva da capacidade intelectual e a intensificação da afetividade da massa” (FREUD, 2024/1921, p.58): “Não vemos as pessoas de nosso grupo só como mais variadas, vemos nosso grupo como melhor e mais merecedor” (ARONSON, 2023, p. 51).
Estamos autorizados a dizer a nós mesmos que as abundantes ligações afetivas que reconhecemos na massa bastam plenamente para explicar uma de suas características, a falta de independência e de iniciativa do indivíduo, a uniformidade de sua reação com a de todos os outros, seu rebaixamento à categoria de indivíduo de massa (FREUD, 2024/1921, p.119).
Assim, a massa pode ser agressiva, promovendo rebeliões, revoluções, linchamentos, destruição, diluindo a culpa no grupo. “Na cegueira do amor a pessoa se transforma em criminoso sem sentir remorsos. A situação toda pode ser perfeitamente resumida numa fórmula: o objeto se colocou no lugar do ideal do eu” (FREUD, 2024/1921, p.113, itálico do autor).
Vemos exemplos disso na história e na arte. O Ditador Júlio Cesar foi assassinado por um grupo de senadores em 44 a.C. com mais de 20 facadas, não sendo possível identificar o causador da estocada fatal; todos esfaquearam, mas nenhum matou (MARRIOTT, 2016, p.47). No livro Assassinato no expresso do oriente (CHRISTIE, 1933) vários viajantes esfaqueiam um dos passageiros, não sendo possível imputar o crime a nenhum deles individualmente. Na obra O perfume (SUSKIND, 1995) uma turba enlouquecida por um perfume que gera atração ataca e devora violentamente o personagem principal (Jean-Baptiste Grenouille), sem que nenhum participante da cena seja responsável pessoalmente pela agressão.
O ingresso do sujeito na massa o compele a se amoldar, adequar, confluir para poder participar (FREUD, 2024/1921, 44-45). A mimetização permite ao indivíduo entrar em harmonia com o grupo e, mais além, de demonstrar que não se opõe ao grupo. “Os homens sempre caminham sobre trilhas já percorridas por outros e imitando as ações de outros” (MAQUIAVEL, 2002, p.141). Para isso, grupos passam a comportamentos que devem ser imitados por todos os que demonstrem alinhamento.
É evidente que está em ação aí algo como uma compulsão a imitar os outros, a permanecer em harmonia com o grande número. Os sentimentos mais grosseiros e mais simples têm maiores probabilidades de se difundir dessa maneira numa massa (FREUD, 2024/1921, p. 63).
O mimetismo, ou imitação, é o elemento aglutinador e unificador do grupo. Se reflete em palavras de ordem, ou seja, slogans, frases de efeito, chavões, hinos, roupas, regras de conduta, regras de convivência, etc. Se trata de um “fazer e não fazer” que remete ao banquete totêmico: todos os que estão presos no crime (e protegidos no grupo), devoram conjuntamente o pai, e enquanto o fazem, têm a permissão do grupo para serem vorazes.
Desse modo, só quem é parte da família (adesão ao grupo) pode banquetear (utilizar as palavras de ordem), o que é vedado a estrangeiros (membros de outras famílias, grupos, etc). Na descrição da origem do bolo de casamento na Roma antiga, a noiva deixava a casa do pai e partia para a casa do marido, e somente aí podia banquetear com ele:
Diante do fogo sagrado, a esposa é colocada em presença da divindade doméstica. É aspergida com água lustral e toca o fogo sagrado. Pronunciam-se preces. Em seguida, os esposos compartilhavam o bolo, um pão e algumas frutas. Essa espécie de refeição ligeira que começa e acaba por uma libação e uma prece, essa partilha de alimentos diante do fogo sagrado, coloca os dois esposos em comunhão religiosa e em comunhão com os deuses domésticos (COULANGES, 2004, p.69).
No mimetismo (imitação), é estabelecido, portanto, um código, uma linguagem na qual “repousaria em grande parte a identificação dos indivíduos entre si” (FREUD, 2024/1921, p.122). O delírio do toque está presente, pois ao se mimetizar com o líder (pai), o sujeito toca no tabu. “o indivíduo abre mão de seu ideal do eu, trocando-o pelo ideal da massa corporificado no líder” (FREUD, 2024/1921, p.141).
Remotamente, a mera repetição cerimonial levava ao resultado magístico pretendido. Para isso era obrigatório que fossem recitadas perfeitamente as fórmulas, com todas as palavras originais, sem erros ou supressões (COULANGES, 2004, p.46). Com o passar o tempo, o apego exclusivo à forma dos atos cerimoniais se tornou insuficiente para manter o grupo arregimentado, passando-se a exigir o reforço de intenso desejo, transubstanciado na devoção, ou fé (FREUD, 2013/1913, p. 84).
Daí vemos dois tipos de autoridades condensarem a força mimética nas massas: a igreja e o exército, e ambos são dirigidos pela fé em um líder. Na igreja, contudo, os afetos se dão entre os pares e entre eles e o sacerdote ou divindade, cujo ideal do eu almejam alcançar (FREUD, 2024/1921, p.78). Há, portanto, afeto libidinal entre os fiéis (filhos) e o deus ou sacerdote (pai). Já no exército, os soldados são iguais entre si, mas nenhum deles é igual ou se tornará igual ao general, razão pela qual o afeto libidinal permanece horizontal (entre os soldados) (FREUD, 2024/1921, p.80).
Temos que a autoridade do pai, além da igreja e do exercício, também se realiza no contexto político. Governantes se assemelham aos generais, pois os sujeitos permanecem iguais entre si, mas ainda que tentem exercer o delírio de tocar o líder, este não é acessível senão por intermediários (tabus por contágio). Esta autoridade faz concluir que o princípio da igualdade não nasce da equidade, e sim do ciúme egoísta. Se um filho não pode ser o predileto do pai, o princípio da igualdade vai garantir que nenhum outro possa. “Já que não se pode ser o predileto, que pelo menos ninguém mais o seja” (FREUD, 2024/1921, p.125).
A igualdade, portanto, é inclusiva em sua exclusão. A deferência de um implicaria na diferença de outros, razão pela qual todos devem permanecer iguais perante a lei [do pai]. “Justiça social significa que a pessoa se priva de muitas coisas para que as outras também tenham que renunciar a elas, ou, o que vem a ser a mesma coisa, para que não possam exigi-las” (FREUD, 2024/1921, p.126).
A igualdade, contudo, não se aplica ao líder, principalmente em se tratando de militar ou político. Ele não é igual, ele é sempre superior (totem). Esta assertiva fica bem ilustrada por Orwell (2021) na obra A revolução dos bichos. Após a deposição do fazendeiro humano (Jones), os porcos (raça mais inteligente no conto) estabeleceram as leis (os sete mandamentos). Em tais regras foi preconizado que “todos os animais são iguais” (ORWELL, 2021, p.58). Após o empoderamento do líder (porco Napoleão), este personagem passou a ter privilégios e conforto vedados à massa, culminando na alteração da redação do dispositivo legal: “todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros” (ORWELL, 2021, p.187, grifo nosso).
A massa efetiva o sugestionamento hipnótico, estimulando a reprodução cega do que diz o líder, especialmente se for carismático (que exerce fascínio). Ainda na obra A revolução dos bichos (ORWELL, 2021), o autor descreve o efeito da repetição de um hino nos animais da fazenda (massa):
O cantar dessa música levou os animais à mais louca excitação. Quase antes de o Major terminar, os bichos começaram a cantar por conta própria. Até os mais estúpidos entre eles pegaram a melodia e alguns dos versos, e os mais inteligentes, como porcos e cães, decoraram a canção inteira em poucos minutos. E então, depois de alguns ensaios preliminares, toda a fazenda irrompeu cantando “Bichos da Inglaterra” num tremendo uníssono. As vacas mugiram a canção, os cachorros a uivaram, as ovelhas a baliram, os cavalos a relincharam, os patos a grasnaram. Os animais ficaram tão empolgados com a música, que a cantaram cinco vezes seguidas e poderiam continuar cantando a noite toda... (ORWELL, 2021, p.40)
Isso ocorre pois o hipnotizador atrai o interesse da massa para si como num sono induzido (FREUD, 2024/1921, p.138):
...por meio de suas medidas o hipnotizador desperta no sujeito uma parte de sua herança arcaica que também fizera concessões aos pais e que experimentou uma reanimação individual na relação com o pai; a representação de uma personalidade prepotente e perigosa frente à qual só se podia adotar uma atitude passivo-masoquista e perder a vontade própria, sendo que estar a sós com ela, “apresentar-se diante de seus olhos”, parecia um empreendimento arriscado” (FREUD, 2024/1921, p.138, grifos do autor).
Este fascínio não significa que o líder tenha características realmente superiores ou nobres. Ao contrário, líderes violentos refletem a própria massa, seus fracassos, frustrações, repressões, recalques, angústias e limitações:
...os novos líderes das massas; suas carreiras lembram as dos primeiros líderes da ralé: fracasso na vida profissional e social, perversão e desastre na vida privada. O fato de que suas vidas, antes do seu ingresso na carreira política, haviam sido um fracasso [...] era o ponto alto da sua atração para as massas. Parecia demonstrar que, individualmente, eles encarnavam o destino da massa do seu tempo, e que o desejo de tudo sacrificarem pelo movimento, a devoção por aqueles que haviam sofrido alguma catástrofe, a determinação de jamais cederam à tentação da segurança da vida normal e do desprezo pela respeitabilidade eram perfeitamente sinceros e não apenas inspirados por ambições passageiras (ARENDT, 2012, p.458, grifo nosso).
Esta é uma relação essencialmente libidinal, a coesão da massa se dá por Eros (FREUD, 2024/1921, p.76). Os indivíduos da massa identificam libidinalmente com o líder.
A identificação é conhecida pela psicanálise como a manifestação mais precoce de uma ligação emocional com outra pessoa. Ela desempenha um papel na pré-história do complexo de Édipo. O menininho manifesta um interesse especial pelo pai; gostaria de se tornar e de ser como ele, de tomar seu lugar sob todos os aspectos. Digamos, sem receito: ele toma o pai como seu ideal (FREUD, 2024/1921, p.98)
Na identificação o sujeito aspira “dar ao próprio eu uma forma semelhante à do outro eu tomado como modelo” (FREUD, 2024/1921, p.100) o que explica o fascínio pelo líder. O líder (pai primordial) é o ideal da massa, que domina o eu em lugar do ideal o eu. (FREUD, 2024/1921, p.139). Além da identificação, ocorre também a idealização do líder, uma sensação de enamoramento. “Ama-se o objeto devido às perfeições que se aspirou para o próprio eu e que agora se gostaria de alcançar por esse rodeio a fim de satisfazer o próprio narcisismo” (FREUD, 2024/1921, p.112). Neste aspecto, a dissonância cognitiva na massa é tal que se opera facilmente a negação.
Em linhas gerais podemos pensar nos elementos sociais como responsáveis por três tipos de processos distintos. O primeiro atrai as pessoas a dar seus passos iniciais na deturpação da realidade. O segundo é o que as mantém nesse caminho. E o terceiro [...] acelera a imersão da pessoa, fortalece seu comprometimento e aumenta seu envolvimento com a subcultura do negacionismo [...] Depois que as pessoas se integram a um grupo social negacionista, um processo diferente é acionado: o processo de manter as crenças e a sensação de conexão com o grupo. Há dois grandes componentes em ação aqui: um que leva as pessoas a consolidar suas crenças e outro que as leva a consolidar seus círculos sociais. (ARIELY, 2024, p.219-227)
Contudo, o princípio da igualdade, que mimetiza os integrantes do grupo, pulsiona as metas libidinais inibidas dos sujeitos. “Descobriu-se que o homem se torna neurótico obsessivo porque não pode suportar a medida de privação que a sociedade lhe impõe” (FREUD, 2011/1930, p.32).
Esse paradoxo que permite compreender a teoria do desejo mimético: Como é possível que, embora todos os homens procurem se distinguir dos outros – seja em suas consumações, seja em seus amores, seja em seus pensamentos – cheguemos todos sempre a uma situação na qual reina a grande homogeneidade? Cada um querendo e desejando ser diferente, somos constrangidos, por isso mesmo, a imitar os outros. Como se a dialética a alteridade nos levasse sempre, e inevitavelmente, ao “mesmo”. (VINOLO, 2012, p.31).
A felicidade social, portanto, depende de renúncias a felicidades individuais, o que gera no sujeito agressividade, ressentimento e sentimento de culpa, uma luta constante entre Eros e pulsões de morte (FREUD, 2024/1921, p.88). Essas renúncias despertam “um quê de pendor agressivo contra a pessoa que atrapalha a satisfação” (FREUD, 2011/1930, p.85).
A razão disso está na ambiguidade dos afetos humanos. Girard (1990, p.181-2011) descreve bem esta questão ao discutir o mimetismo e o seu “duplo monstruoso”. O autor analisa lendas e mitos e traça interessante paralelo entre os heróis e seus duplos maléficos. Para ele, “a mimética faz do desejo a cópia de um outro desejo e conduz necessariamente à rivalidade [...] os desejos e os homens são feitos de tal maneira que eles enviam perpetuamente uns aos outros sinais contraditórios” (GIRARD, 1990, p.186).
O conto Caso de escolha, da obra Cadeira de balanço (DRUMMOND, 1978, p.3-4), ilustra esta frustração advinda do mimetismo. O autor relata o caso dos irmãos Guilherme e Gustavo. O padrinho leva Guilherme a uma loja de brinquedos para que escolha um presente de aniversário. Guilherme se vê diante dos mais desejados brinquedos, mas sem conseguir decidir, escolhe uma simples gaita. Em outra oportunidade, o padrinho leva Gustavo à loja de brinquedos com a mesma proposta. Gustavo se maravilha, olha por todos os lados, deseja os mais incríveis brinquedos, mas desiste ao se lembrar do irmão Guilherme, que na sua vez, escolheu uma gaita. Por fim, frustrado, escolhe também uma simples gaita (mimetismo), sem, contudo, deixar de se ressentir (meta libidinal inibida).
Desse modo, ainda que o sujeito esteja mimeticamente vinculado à massa, suas metas libidinais inibidas permanecem pulsando e produzindo gozo, ou seja, o “fracasso repetitivo” (NASIO, 2014, p.69). “Aqui e alhures, é a aproximação o que desencadeia o conflito. Estamos diante de uma lei fundamental que governa tanto o mecanismo do amor ‘mental’ quanto a evolução social” (GIRARD, 2009, p.34).
Este estado de gozo acaba levando indivíduos da massa à infantilização, “num quadro inequívoco de regressão da atividade psíquica a um nível anterior, como não nos admiramos de encontrar nos selvagens ou nas crianças” (FREUD, 2024/1921, p.120). O sujeito que não suporta mais sua carga de metas inibidas e faz transferência com um líder autoritário, mas que aparenta ser paternalista e protetor, que propale garantia de satisfação de necessidades básicas e vitais. “O homem se inclina diante daquele que lhe dá” (DOSTOIÉVISKY, 2023, p.259). Frente a frustrações, o adulto infantilizado manifesta “retorno a estágios anteriores do pensamento, do sentimento, do comportamento e da libido” (ALMEIDA, 2009, p.53).
...o neurótico representa para nós um quê de infantilismo psíquico, ele não conseguiu libertar-se das condições infantis da psicossexualidade ou reverteu a elas (inibição no desenvolvimento e regressão). Em sua vida psíquica inconsciente, então, as fixações infantis incestuosas da libido têm ainda – ou novamente – um papel determinante. (FREUD, 2013/1913, p.11).
Na regressão há um retrocesso da organização libidinal que se expressa em zonas erógenas (oral, anal ou fálica). O adulto “estaria preso à conserva cultural (passado fixado na memória), sem coragem de experimentar (corpo presente) e sem ousadia para criar (imaginação do futuro)” (ALMEIDA, 2009, p.57).
O desejo de delegar a autoridade, e mais, delegar a um líder muito mais forte e violento, parece pairar no imaginário dos grupos sempre que se sentem privados de seu gozo, ressentidos, frágeis, infantilizados, regredidos. Costa (2023, p.71) define bem tais frustrações com “a invisibilidade social, a precariedade econômica, os desequilíbrios afetivos familiares tudo parece suficientemente ameaçados para jogar os sujeitos nos braços ideológicos do ‘messianismo oportunista’”.
...o desaparecimento da personalidade individual consciente, a orientação dos pensamentos e dos sentimentos nas mesmas direções, o predomínio da afetividade e do psíquico inconsciente, a tendência à execução imediata dos propósitos que surgem -, corresponde a um estado de regressão a uma atividade psíquica primitiva... (FREUD, 2024/1921, p.130, grifo nosso)
No capítulo O grande inquisidor, da obra Irmãos Karamazov (DOSTOIEVISKY, 2023), Jesus aparece em Sevilha, Espanha, e é detido pelo grande inquisidor, que o acusa de voltar para incomodar os vivos e o expulsa. Do esplêndido texto é possível extrair que a liberdade garantida por Jesus trouxe angústia à massa, que para aplacar suas frustrações, a entregou ao grande inquisidor (igreja), recebendo em troca a promessa de felicidade (desejos atendidos): “Aumentastes a liberdade humana em vez que confiscá-la e assim impuseste para sempre ao ser moral os pavores dessa liberdade” (DOSTOIÉVISKY, 2023, p.259).
Uma ilustração lúdica das metas libidinais inibidas que ressentem os sujeitos homogeneizados na massa pode ser extraída da obra A resolução dos bichos (ORWELL, 2021). Os animais da fazenda destituem Jones (humano) e estabelecem o princípio da igualdade, impedindo toda sorte de privilégios. A vedação, contudo, que parecia pacificada no grupo, irrompe na rebeldia de um dos animais, que agraciada secretamente por afagos e presentes do fazendeiro vizinho, abandona o grupo:
As perguntas mais estúpidas de todas foram feitas por Mimosa, a égua branca. A primeira pergunta que ela fez a Bola de Neve foi: __Ainda vai ter açúcar depois da revolução? __Não [...] - respondeu Bola de Neve, com firmeza. __E ainda poderei usar fitas na minha crina? - quis saber Mimosa. __Camarada – disse Bola de Neve -, essas fitas das quais você gosta tanto são o próprio emblema da escravidão. Você não entende que sua liberdade vale mais do que essas fitas? [...] Três dias depois, Mimosa desapareceu. Durante algumas semanas nada se soube sobre seu paradeiro, até que os pombos informaram que a tinham visto do outro lado de Willingdon, atrelada a uma bela charrete pintada de vermelho e preto, do lado de fora de uma taverna. Um homem gordo de rosto vermelho, calça xadrez e polainas, com uma aparência de mascate, acariciava seu focinho e lhe dava torrões de açúcar. Seu pelo estava recém escovado e ela usava uma fita escarlate na crina. Parecida muito satisfeita [...] Nenhum dos bichos mencionou Mimosa de novo... (ORWELL, 2021, p.48 e 88).
Contudo, líderes autoritários nem sempre são depositários confiáveis de frustrações da massa. O efeito que se observa ao longo da história é que o líder violento, autoritário, usa o mimetismo e a hipnose para consolidar na massa o seu poder autocrático, e a opressão para mantê-lo. “Não há nada mais sedutor para o homem do que o livre arbítrio, mas também nada de mais doloroso” (DOSTOIÉVISKY, 2023, p.259).
Entra em cena o adestramento, que liga forças para multiplicar sua abrangência (FOUCAULT, 2014). A massa se entrega voluntariamente ao líder para ser disciplinada (possuída). Neste sentido, temos a máxima de De La Boétie (2017, p.54-55): “os homens são como os mais leais cavalos, que inicialmente mordem o freio e depois passam a apreciá-lo, que primeiramente escoiceiam e logo exibem altivos seu arreio, pavoneando-se sob sua barda”.
O poder disciplinar é com efeito um poder que, em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior “adestrar”. [...] Ele não amarra as forças para reduzi-las; procura ligá-las para multiplicá-las e utilizá-las num todo. Em vez de dobrar uniformemente e por massa tudo o que lhe está submetido, separa, analisa, diferencia, leva seus processos de decomposição até às singularidades necessárias e suficientes. “Adestra” as multidões confusas, móveis, inúteis de corpos e forças para uma multiplicidade de elementos individuais – pequenas células separadas, autonomias orgânicas, identidades e continuidades genéticas, segmentos combinatórios. A disciplina “fabrica” indivíduos; ela é a técnica específica de um poder que torna os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício [...] o sucesso do poder disciplinar se deve sem dúvida ao uso de instrumentos simples: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e sua combinação num procedimento que lhe é específico, o exame (FOUCAULT, 2014, p.167, grifo nosso).
A manutenção do poder tomado se dá pela opressão, e muitas vezes, pela força. “Mesmo depois de atingido o seu objetivo psicológico, o regime totalitário continua a empregar o terror [...] o verdadeiro drama é que ele é aplicado contra uma população já completamente subjugada” (ARENDT, 2012, p.476). O terror se torna o motor do governo autocrático, pois a retirada de liberdades faz a massa se sentir homogeneizada e apaziguada no início, mas gera novamente angústia, medo e revolta no ato seguinte [2].
Se entendermos por “liberdade”, antes de tudo, a responsabilidade de cada indivíduo pela construção da sua existência pessoal, profissional e social, de forma racional, então pode-se dizer que não há nada a se temer mais do que a criação da liberdade geral (REICH, 2001, p.299, itálicos do autor).
Num contexto de grave opressão, a massa começa a novamente desejar a eliminação do líder (pai totêmico). “Toda essa degeneração, esse infortúnio, essa ruína, vêm não de inimigos, mas de um inimigo só, aquele cujo poder é concedido por vós mesmos...” (DE LA BOÉTIE, 2017, p.57). Conforme esclarece Costa (2023, p.109), o ódio dá ao odiado o poder de implicar o odiador.
O sofrimento une e cria movimentos sociais. Este fenômeno foi estudado e descrito por Arendt (2008, p.19-25). As pessoas oprimidas deixam de pedir socorro à res pública e se associam, inclusive em defesa dos direitos humanos, dando ensejo à “compaixão igualitária” (ARENDT, 2008, p.20). Surgem movimentos como o da Revolução Francesa, calcada nos lemas liberdade, igualdade e fraternidade. Esta cena, “em seu pleno desenvolvimento, pode nutrir uma generosidade e uma pura bondade de que os seres humanos, de outra forma, dificilmente são capazes” (ARENDT, 2008, p.21).
Ora, essa “natureza humana” e os sentimentos de fraternidade que a acompanham manifestam-se apenas na obscuridade e, portanto, não podem ser identificados no mundo. E mais, em condições de visibilidade, dissolvem-se no nada como fantasmas. A humanidade dos insultados e injuriados nunca sobreviveu ainda sequer um minuto à hora da libertação. Isso não quer dizer que ela seja insignificante, pois na verdade torna suportáveis o insulto e a injúria; mas sim que em termos políticos é absolutamente irrelevante (ARENDT, 2008, p.25, grifo nosso).
Neste cenário, o líder autocrático é deposto e inicia-se um período democrático. O novo líder assume e aplica o princípio da igualdade [torna iguais os desiguais] e a pressão por metas inibidas volta à fervura, elevando-se paulatinamente, até que surja um novo líder autocrático que proponha sua satisfação. E a compulsão à repetição recomeça: “Não há garantia de posse mais segura do que a da ruína. Aquele que se torna senhor de uma cidade tradicionalmente livre e não a destrói, acaba sendo destruído por ela” (MAQUIAVEL, 2002, p.138).
Este ciclo nos remete à tradição da ruptura, que se observa sempre que o novo depõe o velho na qualidade de negação do ontem: “o que distingue nossa modernidade [...] não é a celebração do novo e surpreendente [...] mas o fato de ser uma ruptura crítica do passado imediato, interrupção da continuidade” (PAZ, 1984, p.20). Nesta ótica, o fim de um ciclo restaura o passado original e dá início a uma fase inevitável de degradação (PAZ, 1984).
Vemos em Reich (2001, p.299) uma interessante análise destes ciclos. O autor pondera que esta contínua transferência de responsabilidades a líderes e a ideologias perpetrada pela massa é a causa e a consequência da infelicidade social. Neste contexto, a massa irresponsável distorce suas atribuições de origem do poder, vislumbrando sempre o falo no líder, e objetivando ser dominada e satisfeita. O autor conclui que “o fascismo se manifesta em cada cidadão do planeta” (REICH, 2001, p.299).
Dessa maneira, a massa nos parece uma revivescência da horda primordial. Assim como o homem primitivo está virtualmente conservado em cada indivíduo, da mesma forma a horda primordial pode se restabelecer a partir de uma multidão qualquer; até o ponto em que a formação de massas domina habitualmente os seres humanos, reconhecemos nela a continuação da horda primordial (FREUD, 2024/1921, p.131).
A superação deste ciclo, ou seja, a satisfatória resolução edipiana na massa, dependeria da assunção de responsabilidade por seu próprio destino, intransponível para sociedades nas quais predomine a regressão libidinal (infantilização): “a sua responsabilidade pela própria vida e atuação não é menor do que a responsabilidade do sapateiro pelos sapatos, do médico pelo paciente, do cientista pelas suas descobertas, do arquiteto pelas suas obras (REICH, 2001, p.309).
3 CONCLUSÃO
Na fábula da horda primeva, os filhos reprimidos se uniram para depor o pai totêmico e sua lei do incesto. Nesta dinâmica, os filhos tiveram sua liberdade e seus desejos coibidos, reprimidos, recalcados [pelo pai], se ressentiram, se tornaram agressivos e essa agressividade se transubstanciou em violência. A deposição do pai levou a escolha do substituto do pai, que restabeleceu sua lei para aplacar a culpa pelo crime cometido. A reinstalação da lei [do pai] manteve reprimidos os desejos do bando e reiniciou o outro ciclo de ressentimento e violência.
Esta resolução traumática (patológica) do complexo Édipo da massa se deu pelos maus tratos sofridos pelo bando (pai autoritário), que neurotizaram a massa. A neurose obsessiva, como já expusemos, cria medo, mas de forma ambivalente, produz raiva e revolta (rebeldia), bem como sentimento de culpa.
Na massa, os sujeitos se unem para diluir suas angústias. As frustrações (crenças e freios) do indivíduo são diluídas e momentaneamente ultrapassadas com a mimetização (imitação). O medo some com a sensação de proteção e impunidade do grupo. A imitação dos pares mantém a coesão, o que torna o grupo homogêneo. A fascinação pelo líder se dá por sugestionamento hipnótico, com a identificação e idealização do representante do pai (ressurreição do morto), fazendo com que os indivíduos substituam o ideal do eu pelo objeto (líder carismático).
O líder autoritário atrai a massa por fascínio, enamoramento. As pessoas sentem forte transferência pelo líder autoritário, dominador e ambivalentemente paternalista e protetor (carismático). A visão do pai fálico, com promessas de solucionar todas as frustrações da massa, coloca seus integrantes em regressão libidinal, um estado de infantilização em que o sujeito tende a querer ser dominado e delegar ao pai totalitário todo poder (falo). O sujeito adere até mesmo à dinâmica “nós contra eles”, ou seja, ao repúdio de tudo o que seja antagônico ou oponente ao líder.
De forma ambivalente, porém, o mimetismo também faz com que o sujeito entre em fervura íntima. Para se adequar (mimetizar) ao grupo, para manter a conformidade e garantir o pertencimento, o sujeito precisa abrir mão de determinados objetivos, desejos e comportamentos [metas libidinais inibidas], se adesivando à moral, ética e desejos ditados pelo grupo e seu líder. O sujeito aderido ao grupo não pode ter ou desejar o que os seus pares não têm ou não desejam, pois isso o deslocaria de sua posição de conformidade.
No entanto, estas renúncias cotidianas levam a novas frustrações no foro íntimo dos membros do grupo, que ficam sufocadas, reprimidas, recalcadas. A pulsão das metas libidinais inibidas permanece incomodando, causam tensão e fomentam agressividade, que se manifesta em forma de medo, raiva e culpa. Fissuras surgem na massa, criando subgrupos discordantes.
Novamente tem início o desejo de eliminar o pai, fonte das coibições (lei). A agressividade em ebulição pode levar à violência do sujeito contra si mesmo ou contra familiares, colegas ou partes dissonantes do grupo. A raiva gera revolta e leva a rebeliões, revoluções, e ao desejo repetido de eliminar o líder (compulsão à repetição). O desejo de delegar a autoridade para resolver frustrações pessoais parece pairar no imaginário dos grupos que sempre que se sentem ressentidos e frágeis. É uma delegação de autoridade para que o novo líder salve a massa das privações decorrentes de sua existência associativa.
Assim, observamos que a massa, neurótica obsessiva, pautada em medo, revolta e culpa, ressentida e recalcada por renúncias pessoais necessárias à manutenção da civilização, sempre culpabiliza o pai (líder) por suas misérias, odiando-o e desejando eliminá-lo (destituí-lo). Quando tais movimentos sociais são engatilhados, um novo aspirante a líder emerge da massa e se erige como salvador, e com discurso que atribui todas as mazelas sociais ao governante (líder do momento) ou a um determinado grupo (judeus no nazismo, por exemplo).
Os discursos são fortes, impactantes, agressivos. A massa ressentida fica fascinada e revive o banquete totêmico, destituindo o líder ou perseguindo os grupos responsabilizados. Contudo, o substituto do pai é agora ainda mais violento, implacável, impiedoso, e para manter o poder conquistado pela propaganda (ilusão), subjuga a massa, que no transcorrer do tempo, volta a se ressentir e dá início à repetição do assassínio do pai.
Respondendo à indagação que deu início ao Capítulo 2.3: Mas por que, num mundo que já vivenciou períodos de dominação violenta, genocídios, sofrimentos atrozes, a massa concorda em seguir com tal dinâmica de poder concentrado em figuras autocráticas?
Nos parece que, quando povos (países) atravessam períodos democráticos e são compelidos a aderirem ao princípio da igualdade (que como demonstramos, é baseado no egoísmo e não na equidade, pois torna iguais os desiguais), querem novamente buscar proteção de um líder dominador que discurse contra as renúncias pessoais que tiveram que fazer para garantir a pacificação social.
O sujeito se frustra e se associa a pares ressentidos, que se tornam agressivos e em algum momento violentos. A adoração do líder leva ao ódio ao oponente, criando um movimento sociopolítico fortemente polarizado. E por fim, leva à quebra da democracia para substituir pela autocracia, promovendo o empoderamento do líder autoritário, na esperança que salve a todos de suas frustrações.
Este líder violento, contudo, irá exercer toda sua força e virulência, achatando ainda mais os integrantes da massa e retirando ainda mais o acesso a seus desejos, aumentando a gama de metas interditadas. A pressão interna novamente eclodirá e repetirá o ciclo, agora para reinstalar a democracia, que não demora, será de novo substituída pelo líder autocrático.
Vemos que o ser humano parece estar regredido infalivelmente à cena do banquete totêmico, traumatizado pelo complexo de Édipo mal resolvido, que leva a massa à neurose obsessiva e aos de sentimentos de medo, revolta e culpa. Disso é possível concluir que a mente humana está incansavelmente presa num software de repetição compulsiva, de padrão binário, que conduz o sujeito à sua eterna punição.
[1] Deixaremos de transcrever os setenta e oito incisos deste dispositivo legal por se tratar de mera ilustração da constatação apresentada.
[2] Um exemplo desta dinâmica [por mera analogia] foi o confisco das poupanças pelo ex-presidente Fernando Collor (1990-1992). De início, parecia aplacar as diferenças socioeconômicas entre as pessoas, já que com excessos confiscados, todos passaram a ter “iguais” recursos. No entanto, logo a meta inibida gerou enorme medo e revolta, eclodindo no impeachment.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, W.C. Defesas do ego: leitura didática de seus mecanismos. 3. ed. São Paulo, SP: Ágora, 2009. 117 p. ISBN 978-85-7183-053-0.
ARENDT, H. Homens em tempos sombrios. Tradução: Denise Bottmann. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2008. 313 p. ISBN 978-85-359-1329-3.
________. Origens do totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. Tradução: Roberto Raposo. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2012. 827 p. ISBN 978-85-359-2204-2.
ARIELY, D. Desinformação. Tradução: Carolina Simmer. Rio de Janeiro, RJ: Sextante, 2024. 288 p. ISBN 978-65-5564-844-7.
ARONSON, E. O animal social. Tradução: Marcello Borges. São Paulo, SP: Goya, 2023. 504 p. ISBN 978-85-7657-600-6.
BRASIL. Constituição Federal (1988). Constituição da Republica Federativa do Brasil: versão atualizada até a Emenda n. 135/2024. Disponível em: < https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituição/constituição.htm>; Acesso em: 28 ago. 2025.
CAMPBELL, J. O herói de mil faces. Tradução: Heráclito Aragão Pinheiro, Camilo Francisco Ghorayeb. São Paulo, SP: 2023. 302 p. ISBN 978-65-86864-29-8.
CHRISTIE, A. Assassinado no expresso do oriente. Tradução: Archibaldo Figueira. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1933, 189 p. ISBN 978-01-15501-2
COSTA, J.F. Além do princípio do pudor. São Paulo, SP: Zagodoni, 2023. 114 p. ISBN 978-65-86711-86-8.
COULANGES, F. A cidade antiga. Tradução: Aurélio Barroso Rebello e Laura Alves. Rio de Janeiro, RJ: Ediouro, 2004, 511 p. ISBN 978-85-0002-824-3.
DE LA BOÉTIE, E. Discursos sobre a servidão voluntária. Tradução: Evelyn Tesche. São Paulo, SP: Edipro, 2017, 79 p. ISBN 978-85-7283-977-6.
DOSTOIÉVSKI, F. Os irmãos Karamázov. Tradução: Augusto dos Santos. São Paulo, SP: Montecristo, 2023, 1199 p. ISBN 978-16-1965-379-5.
DRUMMOND, A.C. Cadeira de balanço. Rio de Janeiro, RJ: Olympio Editora, 1978, 157 p.
FOUCAULT, M. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 14. ed. Tradução: Raquel Ramalhete. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. 302 p. ISBN 978-85-326-0508-5.
FREUD, S. Totem e tabu (1913). Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. 169 p. ISBN 978-85-63560-61-2.
________. Psicologia das massas e análise do eu (1921). Tradução: Renato Zwick. Porto Alegre, RS: L&PM, 2024. 172 p. ISBN 978-85-254-2712-0.
_________. O mal-estar na civilização (1930). Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2011. 93 p. ISBN 978-85-63560-30-8.
GIRARD, R. Mentira romântica e verdade romanesca. Tradução: Lilia Ledon da Silva. São Paulo, SP, Editora É, 2009, 134 p.
________. A violência e o sagrado. Tradução: Martha Conceição Gambini. São Paulo, SP, Editora USP, 1990, 410 p.
INSTITUTO V-DEM. Departamento de Ciência Política da Universidade de Gotemburgo, Suécia. Relatório da Democracia 2025: 25 anos de autocratização – foi a democracia derrotada? Tradução: Joana Rafael Pereira. ISCTE (Instituto Universitário de Lisboa) / CEI (Centro de Estudos Internacionais), 2025, 84 p. ISBN da versão portuguesa: 978-989-584-137-0, Disponível em: < V-DEM Democracy Report 2025> Acesso em: 20 set. 2025.
LASCELLES, C. Breve história do mundo. Tradução: Marina Vargas. Rio de Janeiro, RJ: Edições de Janeiro, 2017. 248 p. ISBN 978-85-9473-010-7.
MALUF, S. Teoria geral do Estado. 29.ed. São Paulo, SP: Saraiva, 2009. 399 p.
MARRIOTT, E. A história do mundo para quem tem pressa. 8. ed. Tradução: Paulo Afonso. Rio de Janeiro, RJ: Valentina, 2016. 200 p. ISBN 978-85-65859-51-6.
MAQUIAVEL, N. O príncipe. Tradução: Lívio Xavier. São Paulo, SP: Ediouro, 2002. 286 p. ISBN 85-00-01168-8.
NASIO, J.-D. Lições sobre os 7 conceitos cruciais da psicanálise: castração, foraclusão, narcisismo, falo, supereu, identificação, sublimação. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, RJ: Zahar, 1997. 201 p. ISBN 978-85-7110-088-6.
________. Édipo: complexo do qual nenhuma criança escapa. 14. ed. Tradução: André Telles. Rio de Janeiro, RJ: Zahar, 2007. 153 p. ISBN 978-85-7110-972-8.
________. Sim, a psicanálise cura! 7.ed. Tradução: Eliana Aguiar. Rio de Janeiro, RJ: Zahar, 2009. 108 p. ISBN 978-85-378-1839-8.
________. Por que repetimos os mesmos erros. 2. ed. Tradução: André Telles. Rio de Janeiro, RJ: Zahar, 2014. 132 p. ISBN 978-85-378-1334-8.
ORWELL, G. A revolução dos bichos. Tradução: Claudio Blanc. São Paulo, SP: Tróia, 2021. 207 p. ISBN 978-85-88436-10-3.
SUSKIND, P. O perfume: história de um assassino. Tradução de Flávio R. Kothe. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1995. 255 p. ISBN 85-01-02776-6.
OTTO, R. O mito do nascimento do herói: uma interpretação psicológica dos mitos. Tradução: Constantino Luz de Medeiros. São Paulo, SP: Cienbook, 2015. 143 p. ISBN 978-85-68224-02-1.
PAZ, O. A Tradição da Ruptura. In: Os filhos do barro. Tradução Olga Savary, Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1984.
REICH, W. Psicologia de massas do fascismo. 3.ed. Tradução: Maria da Graça M. Macedo. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2001. 369 p. ISBN 978-85-336-1418-5.
VINOLO, S. René Girard: do mimetismo à hominização. Tradução: Rosane Pereira e Bruna Beffart. São Paulo, SP: É realizações, 2012. 227 p. (Coleção biblioteca René Girard). ISBN 978-85-8033-059-5.
